O exame de Papanicolau faz parte da rotina de cuidados ginecológicos há muitos anos. Por isso, é comum que algumas mulheres ainda tenham a ideia de que o exame precisa ser realizado todos os anos para que o câncer do colo do útero seja prevenido.
Quando recebem a orientação de que o próximo exame pode ser feito apenas depois de alguns anos, muitas ficam inseguras. Afinal, três anos não parece muito tempo? E se alguma alteração aparecer nesse intervalo?
Essa dúvida é compreensível, principalmente quando surgem histórias como: “Uma conhecida fez o exame no ano passado, estava tudo normal e agora descobriu uma alteração no colo do útero”.
Mas o rastreamento não funciona a partir da lógica de que um exame normal hoje garante que nada poderá acontecer amanhã. Ele é organizado de acordo com a história natural da doença, a capacidade dos exames de identificar alterações e o intervalo em que esse acompanhamento oferece segurança.
Neste post, explico por que o Papanicolau não precisa ser feito todos os anos, o que pode acontecer entre um exame e outro e o que muda com a chegada do teste de DNA-HPV ao rastreamento do câncer do colo do útero.
Por que o Papanicolau não precisa ser feito todos os anos?
O câncer do colo do útero geralmente não surge de forma repentina. Na maioria dos casos, existe uma sequência de alterações que acontece ao longo do tempo, permitindo que o rastreamento identifique lesões precursoras antes que elas evoluam para um câncer invasivo.
Por isso, fazer o exame com intervalos definidos não significa deixar de cuidar da saúde nesse período.
No modelo de rastreamento com citologia, utilizado atualmente nos locais onde o teste de DNA-HPV ainda não está disponível, a recomendação é realizar dois exames anuais consecutivos. Se ambos forem normais, o intervalo passa a ser de três anos.
Esse intervalo não foi escolhido de maneira aleatória. Ele considera a evolução geralmente lenta das alterações precursoras e o desempenho do método de rastreamento.
Fazer o exame todos os anos pode parecer, intuitivamente, uma forma de aumentar a proteção. No entanto, para a população de risco habitual, não há evidência de que o rastreamento citológico anual seja significativamente mais efetivo do que aquele realizado nos intervalos recomendados.
Exame ginecológico é a mesma coisa que Papanicolau?
Não. O exame ginecológico e o Papanicolau fazem parte do cuidado com a saúde da mulher, mas têm finalidades diferentes.
Durante a consulta ginecológica, o médico pode realizar o exame das mamas, da vulva, da vagina e do colo do útero, de acordo com a necessidade de cada paciente. O exame especular, por exemplo, permite visualizar a vagina e o colo do útero e pode fazer parte da avaliação ginecológica.
Já o Papanicolau é um exame específico para o rastreamento do câncer do colo do útero. Durante a coleta, são obtidas células do colo do útero que serão analisadas em laboratório para identificar alterações celulares que possam estar relacionadas a lesões precursoras.
Por isso, ter feito um exame ginecológico não significa necessariamente ter feito o Papanicolau. A coleta para o rastreamento precisa ter sido realizada e encaminhada para análise.
Essa é uma confusão bastante comum. A mulher pode sair de uma consulta acreditando que fez o “preventivo” porque passou pelo exame ginecológico, quando, na verdade, não houve coleta para o rastreamento.
Com a introdução do teste de DNA-HPV como método primário de rastreamento, também é importante saber qual exame foi realizado e qual foi o seu resultado. O acompanhamento não depende apenas de ter ido ao ginecologista, mas de realizar o método de rastreamento indicado para cada situação e seguir o intervalo recomendado.
Mas e se o exame estava normal e depois apareceu uma alteração?
Essa é uma das dúvidas que mais geram insegurança.
É importante entender que um resultado normal é uma informação tranquilizadora de que, naquele exame, não foram identificadas alterações que indiquem necessidade de investigação no momento, mas não significa que a mulher nunca poderá desenvolver uma alteração no futuro.
Uma nova infecção pelo HPV pode ocorrer depois de um exame normal. Uma infecção que já existia também pode persistir ou se tornar detectável posteriormente.
Por isso, uma mulher pode ter tido um exame normal em determinado momento e, posteriormente, apresentar uma alteração que precise ser investigada.
Isso não significa necessariamente que o exame anterior “errou”. Significa que o rastreamento é um processo contínuo, realizado em intervalos definidos, e não uma fotografia capaz de prever tudo o que acontecerá nos anos seguintes.
É justamente por isso que existem programas de rastreamento organizados, com periodicidade definida e acompanhamento dos resultados.
O que mudou com o teste de DNA-HPV?
Nos últimos anos, o rastreamento do câncer do colo do útero passou por uma mudança importante.
As novas Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, publicadas em 2025, adotaram o teste molecular para detecção do DNA do HPV oncogênico (aqueles com potencial para causar câncer) como método primário de rastreamento.
O teste de DNA-HPV oncogênico identifica a presença de tipos de HPV associados ao desenvolvimento do câncer do colo do útero. Por apresentar maior sensibilidade para detectar a infecção pelo HPV oncogênico do que a citologia convencional, ele passou a ser adotado como método primário de rastreamento no novo modelo brasileiro.
Quando o resultado indica a presença de HPV oncogênico, a paciente pode precisar de uma investigação complementar, definida de acordo com o tipo de HPV identificado e os demais achados do rastreamento.
O que o Papanicolau identifica e como ele é diferente do DNA-HPV?
O Papanicolau é um exame citopatológico. Durante a coleta, células do colo do útero são obtidas e analisadas para identificar alterações celulares.
Essas alterações podem ter diferentes graus e significados. Algumas podem estar relacionadas a infecções pelo HPV, enquanto outras representam lesões precursoras que precisam de acompanhamento ou investigação complementar.
Uma alteração no exame não significa automaticamente câncer.
Dependendo do resultado, a conduta pode ser apenas repetir o exame em determinado intervalo, realizar uma investigação complementar ou encaminhar para colposcopia e outros procedimentos.
Tanto o exame do Papanicolau quanto o teste de DNA-HPV são exames de rastreamento de câncer de colo uterino, porém, eles avaliam informação diferentes.
O Papanicolau analisa as células do colo do útero e procura alterações nas células.
O teste de DNA-HPV pesquisa a presença de tipos de HPV considerados oncogênicos, ou seja, relacionados ao desenvolvimento de lesões precursoras e câncer do colo do útero.
O novo modelo brasileiro utiliza o DNA-HPV como exame primário de rastreamento. O Papanicolau continua sendo uma alternativa segura e eficaz nos locais onde o teste molecular ainda não está disponível.
Portanto, não significa que o Papanicolau “deixou de funcionar”. O que mudou foi a estratégia utilizada para rastrear a doença.
Por que o intervalo pode ser ainda maior com o DNA-HPV?
Essa é justamente uma das mudanças que podem causar estranhamento.
Se o novo exame é mais sensível para identificar o HPV oncogênico, por que não seria necessário repeti-lo todos os anos?
Porque um resultado negativo para DNA-HPV apresenta um alto valor preditivo negativo. Em outras palavras, quando o teste não identifica HPV oncogênico, a probabilidade de existir uma lesão precursora relevante naquele momento é muito baixa.
Por isso, para mulheres de risco padrão, as novas diretrizes estabelecem intervalo de cinco anos após um resultado negativo no teste de DNA-HPV, conforme a implementação do novo modelo de rastreamento.
O intervalo maior, portanto, não significa menor cuidado. Ele é consequência da maior capacidade do método de identificar o principal fator relacionado ao desenvolvimento das lesões precursoras.
Quem deve fazer o rastreamento?
No Brasil, o rastreamento é direcionado à população de risco padrão com colo do útero, na faixa etária de 25 a 64 anos e que já teve atividade sexual.
A forma de rastreamento e o intervalo dependem do método disponível e dos resultados anteriores.
Além disso, existem situações que exigem uma conduta diferente, como mulheres imunossuprimidas ou com histórico de lesões no colo do útero. Nesses casos, não se deve simplesmente aplicar o intervalo destinado à população de risco padrão.
Por isso, o acompanhamento ginecológico continua sendo importante mesmo quando a mulher está dentro da faixa etária de rastreamento.
Então posso ficar tranquila durante o intervalo entre os exames?
Sim, quando o intervalo foi definido de acordo com as recomendações de rastreamento e com o seu histórico.
O objetivo não é fazer o maior número possível de exames, mas utilizar o método adequado, no momento adequado e acompanhar corretamente qualquer resultado que precise de investigação.
Também é importante lembrar que rastreamento não é a mesma coisa que investigação de sintomas. Se uma mulher apresenta sangramento após a relação sexual, sangramento vaginal anormal ou outro sintoma que precise de avaliação, não deve esperar a próxima data prevista para o rastreamento.
Da mesma forma, uma alteração encontrada no rastreamento precisa ser acompanhada de acordo com a sua classificação e com as recomendações específicas para cada situação.
O mais importante é entender que a prevenção do câncer do colo do útero não depende de fazer um exame todos os anos. Ela depende de um rastreamento adequado, realizado na população indicada, com o método recomendado e com seguimento correto dos resultados.
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Sou a Dra. Edna Bittencourt, ginecologista e obstetra em Curitiba.
Atendo mulheres em diferentes fases da vida, com foco em saúde íntima, climatério e ginecologia baseada em evidências.
Na consulta, meu objetivo é entender os sintomas de forma individualizada, explicar o que está acontecendo no corpo e discutir as possibilidades de tratamento de maneira clara e participativa.
O rastreamento do câncer do colo do útero é uma das formas de prevenção que fazem parte do cuidado ginecológico. Entender qual método está indicado, respeitar o intervalo recomendado entre os exames e acompanhar adequadamente cada resultado são medidas importantes para identificar alterações precocemente e reduzir o risco de evolução para o câncer.










